Login

A Farra dos Sacos Plásticos PDF  | Imprimir |
 

By Rachel Moreno,

Views : 1055    


A farra dos sacos plásticos

André Trigueiro*

O Brasil é definitivamente o paraíso dos sacos plásticos. Todos os
supermercados, farmácias e boa parte do comércio varejista embalam em
saquinhos tudo o que passa pela caixa registradora. Não importa o tamanho do
produto que se tenha à mão, aguarde a sua vez porque ele será embalado num
saquinho plástico. O pior é que isso já foi incorporado na nossa rotina como
algo normal, como se o destino de cada produto comprado fosse mesmo um saco
plástico. Nossa dependência é tamanha, que quando ele não está disponível,
costumamos reagir com reclamações indignadas.

Quem recusa a embalagem de plástico é considerado, no mínimo, exótico. Outro
dia fui comprar lâminas de barbear numa farmácia e me deparei com uma
situação curiosa. A caixinha com as lâminas cabia perfeitamente na minha
pochete. Meu plano era levar para casa assim mesmo. Mas num gesto
automático, a funcionária registrou a compra e enfiou rapidamente a mísera
caixinha num saco onde caberiam seguramente outras dez. Pelas razões que
explicarei abaixo, recusei gentilmente a embalagem.

A plasticomania vem tomando conta do planeta desde que o inglês Alexander
Parkes inventou o primeiro plástico em 1862. O novo material sintético
reduziu os custos dos comerciantes e incrementou a sanha consumista da
civilização moderna. Mas os estragos causados pelo derrame indiscriminado de
plásticos na natureza tornou o consumidor um colaborador passivo de um
desastre ambiental de grandes proporções. Feitos de resinas sintéticas
originadas do petróleo, esses sacos não são biodegradáveis e levam séculos
para se decompor na natureza. Usando a linguagem dos cientistas, esses
saquinhos são feitos de cadeias moleculares inquebráveis, e é impossível
definir com precisão quanto tempo levam para desaparecer no meio natural.

No caso específico das sacolas de supermercado, por exemplo, a matéria-prima
é o plástico filme, produzido a partir de uma resina chamada polietileno de
baixa densidade (PEBD). No Brasil são produzidas 210 mil toneladas anuais de
plástico filme, que já representa 9,7% de todo o lixo do país. Abandonados
em vazadouros, esses sacos plásticos impedem a passagem da água - retardando
a decomposição dos materiais biodegradáveis - e dificultam a compactação dos
detritos.

Essa realidade que tanto preocupa os ambientalistas no Brasil, já justificou
mudanças importantes na legislação - e na cultura - de vários países
europeus. Na Alemanha, por exemplo, a plasticomania deu lugar à sacolamania.
Quem não anda com sua própria sacola a tiracolo para levar as compras é
obrigado a pagar uma taxa extra pelo uso de sacos plásticos. O preço é
salgado: o equivalente a sessenta centavos a unidade.

A guerra contra os sacos plásticos ganhou força em 1991, quando foi aprovada
uma lei que obriga os produtores e distribuidores de embalagens a aceitar de
volta e a reciclar seus produtos após o uso. E o que fizeram os empresários?
Repassaram imediatamente os custos para o consumidor. Além de antiecológico,
ficou bem mais caro usar sacos plásticos na Alemanha.

Na Irlanda, desde 1997 paga-se um imposto de nove centavos de libra
irlandesa por cada saco plástico. A criação da taxa fez multiplicar o número
de irlandeses indo às compras com suas próprias sacolas de pano, de palha, e
mochilas. Em toda a Grã-Bretanha, a rede de supermercados CO-OP mobilizou a
atenção dos consumidores com uma campanha original e ecológica: todas as
lojas da rede terão seus produtos embalados em sacos plásticos 100%
biodegradáveis. Até dezembro deste ano, pelo menos 2/3 de todos os saquinhos
usados na rede serão feitos de um material que, segundo testes em
laboratório, se decompõe dezoito meses depois de descartado. Com um detalhe
interessante: se por acaso não houver contato com a água, o plástico se
dissolve assim mesmo, porque serve de alimento para microorganismos
encontrados na natureza.

Não há desculpas para nós brasileiros não estarmos igualmente preocupados
com a multiplicação indiscriminada de sacos plásticos na natureza. O país
que sediou a Rio-92 (Conferência Mundial da ONU sobre Desenvolvimento e Meio
Ambiente) e que tem uma das legislações ambientais mais avançadas do
planeta, ainda não acordou para o problema do descarte de embalagens em
geral, e dos sacos plásticos em particular.

A única iniciativa de regulamentar o que hoje acontece de forma aleatória e
caótica foi rechaçada pelo Congresso na legislatura passada. O então
deputado Emerson Kapaz foi o relator da comissão criada para elaborar a
"Política Nacional de Resíduos Sólidos". Entre outros objetivos, o projeto
apresentava propostas para a destinação inteligente dos resíduos, a redução
do volume de lixo no Brasil, e definia regras claras para que produtores e
comerciantes assumissem novas responsabilidades em relação aos resíduos que
descartam na natureza, assumindo o ônus pela coleta e processamento de
materiais que degradam o meio ambiente e a qualidade de vida.

O projeto elaborado pela comissão não chegou a ser votado. Não se sabe
quando será. Sabe-se apenas que não está na pauta do Congresso. Omissão
grave dos nossos parlamentares que não pode ser atribuída ao mero
esquecimento. Há um lobby poderoso no Congresso trabalhando no sentido de
esvaziar esse conjunto de propostas que atinge determinados setores da
indústria e do comércio.

É preciso declarar guerra contra a plasticomania e se rebelar contra a
ausência de uma legislação específica para a gestão dos resíduos sólidos. Há
muitos interesses em jogo. Qual é o seu?

* O jornalista André Trigueiro é redator e apresentador do Jornal das Dez,
da Globonews, desde 1996. Na Rádio Viva Rio AM (1180 kHz), Trigueiro
apresenta o programa Conexão Verde, de segunda a sexta. Nele, aborda temas
sobre meio ambiente e desenvolvimento sustentável. O jornalista é
pós-graduado em Meio Ambiente pela MEB COPPE/UFRJ (2001).

Fonte: HYPERLINK
"http://www.ecopop.com.br/publique/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?


"Nada podemos esperar senão de nós mesmos."
AddThis Social Bookmark Button

   

Users' Comments  RSS feed dos comentários
 

Average user rating

   (0 voto)

 


Adicionar comentário

Nenhum comentário



mXcomment 1.0.9 © 2007-2010 - visualclinic.fr
License Creative Commons - Some rights reserved
< Anterior   Próximo >
Mapa do Site
Sardinha17